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Entrevista com o médico psiquiatra
Rubens Mário Mazzini Rodrigues sobre Amor, Paixão e
Dor e sobre como esses sentimentos ocorrem e
interferem na vida de todos podendo trazer tanto
felicidade quanto sofrimento, em proporções variáveis,
dependendo das
circunstâncias. O sentimento
amoroso pode ser, ao mesmo tempo, a experiência mais
maravilhosa e mais perturbadora da existência.
Qual a diferença "clássica" entre AMOR e PAIXÃO?
Antes um alerta. Esse é um tema muito
amplo, além de controverso, para ser abordado no âmbito de
uma entrevista. Podemos aqui apenas dar respostas parciais
a algumas questões e levantar outras que ficarão sem
resposta. Do ponte de vista "clássico", aquele que
está enraizado no imaginário popular, "paixão" é um amor
intenso, de maior magnitude, algo muito
desejável, uma experiência maravilhosa
que todos gostariam de
vivenciar. Estar apaixonado é uma das vivências mais
valorizadas, a ponto de as pessoas que nunca se
apaixonaram sentirem-se frustradas por nunca terem sido
abençoadas com algo tão maravilhoso como a paixão.
Muito(a)s sentem-se deprimido(a)s por ainda não terem
encontrado uma grande paixão. O amor é considerado um
sentimento mais suave, menos intenso, mas mais duradouro,
que não chega a arrebatar a pessoa como a paixão.
Na prática estas diferenças são pontuais, visíveis?
Sim, são
visíveis, pois a pessoa tomada de paixão sofre uma mudança
que pode ser percebida na sua expressão
facial, no comportamento, na postura corporal.
A pessoa fica sonhadora,
suspirosa, anda flutuando, tem
diminuição do apetite e da necessidade de sono, o coração
bate mais forte, enfim, todos conhecem bem os sintomas.
A paixão é
sempre um sentimento doentio, excessivo em relação à outra
pessoa?
Bem, é aí
que pode ocorrer uma divergência ou controvérsia entre a
visão romântica tradicional e a visão do ponto de vista da
psicologia ou até mesmo da psicopatologia e da
neuropsicofisiologia. Etmologicamente a palavra
paixão tem a mesma origem de pathos
(doença), tem o sentido de um grande sofrimento, como foi
a paixão de Cristo ao antever o que sentiria ao ser
cruxificado. Do ponto de vista psicológico a paixão é um
estado alterado de consciência que pode ser muito
perturbador. Dependendo de como a pessoa reage a esse
estado ela pode chegar a um estado que pode ser definido
como patológico ou neurótico. Freud não tinha dúvidas de
que se tratava de uma neurose, especialmente quando estava
associada a sentimentos patológicos de ciúme, na qual o
indivíduo apaixonado está sempre encontrando rivais
imaginários por todos os lados, o que poderia estar
relacionado a um complexo de Édipo mal elaborado ou a
dificuldades de auto-estima (que Jung chamou de
complexo de inferioridade) com uma conseqüente
supervalorização do objeto amoroso. Há ainda a paixão não
correspondida (platônica) que pode se tornar uma obsessão.
A pessoa vítima de paixão obsessiva não se conforma ou não
aceita o rompimento de um relacionamento ou o fato de seu
amor não ser correspondido por seu objeto de amor, algo
que está relacionado ao narcisismo primário. Aquilo que
popularmente se chama de paixão é o sentimento de amor
nascente ou enamoramento, que é um sentimento agradável,
que traz uma sensação de grande felicidade.
A paixão
pode levar ao amor... em que momento e quando percebemos
que isto acontece?
Bom, teremos
que usar um termo redundante, "paixão doentia", para
diferenciar do que seria uma "paixão normal" (enamoramento).
A paixão doentia não evolui para o amor, pois não se trata
de um sentimento autêntico de amor, mas sim de um
sentimento provocado por carências e dificuldades
emocionais ou de personalidade do indivíduo. O
enamoramento, como estado nascente, este sim pode levar a
um amor maduro, saudável e duradouro. Isso acontece no
momento em que se demonstra capaz de atender de forma
suficientemente satisfatória as necessidades afetivas dos
indivíduos envolvidos.
A pessoa
apaixonada sofre, padece, perde a paz. O que podemos fazer
para que ela não perca a capacidade de realidade?
Essa perda
da paz interior é a principal característica da pessoa
vítima de uma paixão patológica. Nesse estado a pessoa, na
verdade, já está com a sua capacidade de juízo da
realidade bastante comprometida. Argumentos racionais,
apelos à razão ou a simples confrontação com a realidade
parecem não ajudar. Tentativas nesse sentido podem
frustrar mais ainda o indivíduo que pode se tornar hostil
(irritado) e até mesmo agressivo com os amigos ou
familiares que tentam ajudá-lo. Apenas através do
entendimento do que está acontecendo com suas emoções é
capaz de ajudar o indivíduo a superar o estado de paixão,
para isso pode ser necessário um atendimento psicoterápico
e, inclusive, psiquiátrico, pois, dependendo do nível de
ansiedade, pode ser necessário o uso de medicamentos,
mesmo porque pode haver um outro transtorno subjacente, o
que não é incomum.
Qual o
perfil psicológico de uma pessoa que se apaixona e se
envolve demasiadamente com o sujeito/objeto de sua paixão?
Podem
existir as mais diversas situações e diferentes níveis de
gravidade nos casos de paixão. O perfil psicológico das
pessoas afetadas, portanto, pode ser muito variável. Mas,
pode-se afirmar com pouca margem de erro que, via de
regra, há alguma fragilidade na formação da personalidade,
aspectos pouco desenvolvidos ou insuficientemente
amadurecidos da personalidade que predispõe o indivíduo a
vir a apresentar esse tipo de sofrimento, ou seja, falhas
na formação emocional básica, em especial na capacidade de
suportar frustrações.
A paixão
pode levar à loucura, literalmente?
Primeiro
seria necessário definirmos o que é "loucura". O que
vulgarmente é chamado de "loucura" são transtornos
psiquiátricos mais graves, que normalmente são
pré-existentes, a frustração amorosa pode, no máximo,
funcionar como um fator precipitante de uma agudização. É
difícil se afirmar que um indivíduo antes normal possa
adoecer gravemente em função de um estado nascente, no
máximo poderá ocorrer uma reação depressiva breve em
função de uma frustração ou perda amorosa ou o que se
chama de reação de ajustamento no caso do término de um
relacionamento duradouro.
Como
tratar pessoas que perdem a noção da realidade quando
estão apaixonadas? Há remédio
para isso?
Não existe
um "remédio" específico para a paixão, mesmo porque esta
não é uma entidade clínica simples, mas uma síndrome
(conjunto de sinais e sintomas) que pode estar presente em
diferentes circunstâncias. Como sempre em medicina, cada
caso é um caso. Precisa-se, então, encontrar as soluções
mais apropriadas para cada caso, tanto do ponto de vista
psicoterápico quanto medicamentoso (quando necessário), o
que será feito a partir de um diagnóstico cuidadoso da
situação de cada indivíduo.
É
possível dizer que pessoas com este perfil são geralmente
pessoas depressivas?
Generalizar
seria inapropriado. No entanto, é provável que uma boa
percentagem das pessoas acometidas de paixão possam
apresentar um transtorno de humor subjacente. Atualmente
sabe-se que o estado nascente é capaz de ocasionar a
liberação de um potente neurotransmissor responsável pelas
reações próprias deste estado, que popularmente tem sido
chamado de "droga da paixão". No caso de pessoas
deprimidas, esse neurotransmissor pode ter ume feito
benéfico, de alívio dos sintomas depressivos, o que pode
ocasionar uma espécie de dependência química, do tipo
cantado por Rita Lee na canção que diz "sou dependente
do amor". Há pessoas como que "viciadas" em paixão,
precisando saltar de uma paixão para outra, nunca se
estabilizando em um relacionamento amoroso duradouro.
Quando a
paixão pode ser benéfica, positiva?
Quando não é
patológica, no caso, o estado de enamoramento bem
sucedido. No entanto, mesmo um enamoramento mal sucedido
ou uma paixão, depois de superada pode trazer lições de
vida importantes, levando ao crescimento pessoal, desde
que o indivíduo consiga identificar e resolver os
conflitos emocionais e afetivos que estavam por trás do
seu surgimento.
Na sua experiência de consultório quem mais sofre deste
mal o homem ou a mulher?
As mulheres,
em função de serem, de modo geral, serem mais suscetíveis
a depressão e a outros transtornos emocionais, tendem a
apresentar esse tipo de problema com mais freqüência. Essa
é uma questão muito complexa, pois envolve um tema ainda
mais amplo que é o universo das relações homem-mulher, com
todas as suas complicações. Haveria que se considerar, por
exemplo, até que ponto, ou de que maneira, as reações e
atitudes distintas de cada gênero sexual podem influenciar
o que acontece nesses casos.
A paixão
não tem idade, mas em que período da vida ela é mais
suscetível?
Sim, a
princípio a paixão pode acometer pessoas de todas as
idades, mas, sem dúvida, é mais comum na juventude, quanto
as pessoas estão mais afeitas e disponíveis ao
enamoramento.
Rubens Mário Mazzini Rodrigues
Médico Psiquiatra - CRM 9760
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